quinta-feira, 19 de junho de 2008

Do semanário BRECHA - Uruguai

Amigo Leitor,

Nosso editor, o Pedro, preparou este espaço para compartilharmos opiniões.
Vou usá-lo um pouco para colocar idéias próprias, e também para divulgar textos e imagens que recebo ou que fazem parte do meu dia-a-dia, pesquisando impressões do passado. Acho que desta forma, valorizo o espaço criado pelo Pedro, um presentaço para o SOS Serra da Piedade, para Caeté e as nossas(?) Minas Gerais. Usarei o espaço para publicar subsídios para a reflexão de todos.

Estréio com texto do Eduardo Galeano, o ensaista uruguaio autor do famoso "As Veias Abertas da América Latina", que acabo de receber.



Um abraço e boa leitura,
Gustavo Gazzinelli


Do semanário BRECHA - Uruguai

Do semanário BRECHA - Uruguai
O Equador está discutindo uma nova Constituição. Entre as propostas, abre-se a possibilidade de reconhecer, pela primeira vez na história, os direitos da natureza. Parece loucura querer que a natureza tenha direitos. Em compensação, parece normal que as grandes empresas dos EUA desfrutem de direitos humanos, conforme foi aprovado pela Suprema Corte, em 1886.

EDUARDO GALEANO:

O mundo pinta naturezas mortas, sucumbem os bosques naturais, derretem os pólos, o ar torna-se irrespirável e a água imprestável, plastificam-se as flores e a comida, e o céu e a terra ficam completamente loucos.
E, enquanto tudo isto acontece, um país latino-americano, o Equador, está discutindo uma nova Constituição. E nessa Constituição abre-se a possibilidade de reconhecer, pela primeira vez na história universal, os direitos da natureza.
A natureza tem muito a dizer, e já vai sendo hora de que nós, seus filhos, paremos de nos fingir de surdos. E talvez até Deus escute o chamado que soa saindo deste país andino, e acrescente o décimo primeiro mandamento, que ele esqueceu nas instruções que nos deu lá do monte Sinai: "Amarás a natureza, da qual fazes parte".

Um objeto que quer ser sujeito

Durante milhares de anos, quase todo o mundo teve direito de não ter direitos.
Nos fatos, não são poucos os que continuam sem direitos, mas pelo menos se reconhece, agora, o direito a tê-los; e isso é bastante mais do que um gesto de caridade dos senhores do mundo para consolo dos seus servos.
E a natureza? De certo modo, pode-se dizer que os direitos humanos abrangem a natureza, porque ela não é um cartão postal para ser olhado desde fora; mas bem sabe a natureza que até as melhores leis humanas tratam-na como objeto de propriedade, e nunca como sujeito de direito.
Reduzida a uma mera fonte de recursos naturais e bons negócios, ela pode ser
legalmente maltratada, e até exterminada, sem que suas queixas sejam
escutadas e sem que as normas jurídicas impeçam a impunidade dos criminosos.
No máximo, no melhor dos casos, são as vítimas humanas que podem exigir uma
indenização mais ou menos simbólica, e isso sempre depois que o mal já foi
feito, mas as leis não evitam nem detêm os atentados contra a terra, a água
ou o ar.
Parece estranho, não é? Isto de que a natureza tenha direitos... Uma loucura. Como se a natureza fosse pessoa! Em compensação, parece muito normal que as grandes empresas dos Estados Unidos desfrutem de direitos humanos. Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos, modelo da justiça universal, estendeu os direitos humanos às corporações privadas. A lei reconheceu para elas os mesmos direitos das pessoas: direito à vida, à livre expressão, à privacidade e a todo o resto, como se as empresas respirassem. Mais de 120 anos já se passaram e assim continua sendo. Ninguém fica estranhado com isso.

Gritos e sussurros

Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do Equador.

Este país sofreu numerosas devastações ao longo da sua história. Para citar apenas um exemplo, durante mais de um quarto de século, até 1992, a empresa petroleira Texaco vomitou impunemente 18 bilhões de galões de veneno sobre terras, rios e pessoas. Uma vez cumprida esta obra de beneficência na Amazônia equatoriana, a empresa nascida no Texas celebrou seu casamento com a Standard Oil. Nessa época, a Standard Oil, de Rockefeller, havia passado a se chamar Chevron e era dirigida por Condoleezza Rice. Depois, um oleoduto transportou Condoleezza até a Casa Branca, enquanto a família Chevron-Texaco continuava contaminando o mundo.

Mas as feridas abertas no corpo do Equador pela Texaco e outras empresas não são a única fonte de inspiração desta grande novidade jurídica que se tenta levar adiante. Além disso, e não é o menos importante, a reivindicação da natureza faz parte de um processo de recuperação das mais antigas tradições do Equador e de toda a América. Visa a que o Estado reconheça e garanta o direito de manter e regenerar os ciclos vitais naturais, e não é por acaso que a Assembléia Constituinte começou por identificar seus objetivos de renascimento nacional com o ideal de vida do sumak kausai. Isso significa, em língua quechua, vida harmoniosa: harmonia entre nós e harmonia com a natureza, que nos gera, nos alimenta e nos abriga e que tem vida própria, e valores próprios, para além de nós.

Essas tradições continuam miraculosamente vivas, apesar da pesada herança do racismo, que no Equador, como em toda a América, continua mutilando a realidade e a memória. E não são patrimônio apenas da sua numerosa população indígena, que soube perpetuá-las ao longo de cinco séculos de proibição e desprezo. Pertencem a todo o país, e ao mundo inteiro, estas vozes do passado que ajudam a adivinhar outro futuro possível.

Desde que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a conquista européia castigou a adoração da natureza, que era pecado de idolatria, com penas de açoite, forca ou fogo. A comunhão entre a natureza e o povo, costume pagão, foi abolida em nome de Deus e depois em nome da civilização. Em toda a América, e no mundo, continuamos pagando as conseqüências desse divorcio obrigatório.
Publicado originalmente no semanário Brecha, do Uruguai.

2 comentários:

Pedro Melo disse...

Grande Gustavo,
fico muito feliz e emocionado em estar fazendo algo que seja valorizado assim.
A criação de um espaço para idéias não é nada comparado ao trabalho dos guardiões de nossa Serra da Piedade.
Obrigado a vocês!
Nossos blogueiros (Gustavo, Vanderlei, Alice e Ronaldo) pelo comprometimento e bom uso do espaço, pelo conteudo e pela amizade.
Forte abraço!

Pedro Melo

Gustavo T Gazzinelli disse...

Pedro, o Grande,
bacana também é o crescimento deste trabalho a partir de iniciativas como a sua, Guardião também da Serra da Piedade. Espero que as palavras de Pedro, os blogs de Pedros nos ajudem a sensibilizar a sociedade em geral, por todas as cores e gerações, para na verdade um ponto de inflexão que ou mudará o mundo, para sempre, ou mudará o curso das coisas e da nossa cultura, pouco responsável para com a sustentabilidade planetária.
Não me vejo ainda morando em Marte ou Júpiter, em colônia fechada, e com recursos artificiais, imitando a Terra que ainda podemos salvar, mas não sei por quanto tempo.
Não é catastrofismo - mas o sentimento de uma contagem regressiva e destrutiva, que não quer parar.
Um abraço,
Gustavo